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A confiança é o futuro

Confira o artigo de Marcelo Rech, Presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), vice-presidente do Fórum Mundial de Editores e vice-presidente Editorial do Grupo RBS.

Você entra na internet para selecionar um produto qualquer e depara com infinitas variedades e marcas, além de uma montanha-russa de preços de artigos similares. Há diferentes opções de pagamento, ofertas de toda espécie e um bombardeio de anúncios digitais que tentam fisgar sua atenção e, principalmente, seu dinheiro.

Se o produto for importante para sua vida, é recomendável não arriscar. Além de fornecer o código de seu cartão de crédito, você precisa crer no prazo e nas condições de entrega e, finalmente, que o produto não vai lhe decepcionar. A melhor solução, mesmo que eventualmente um pouco mais cara, é acreditar em uma loja e na marca de um produto que já estabeleceu, ao longo do tempo, uma relação de credibilidade com seu público. Se algo falhar no processo, sempre restará a confiança de que o cliente terá a devida atenção para a solução do problema.

Credibilidade é um valor intangível mas no qual se assenta qualquer transação humana, na presunção de que o que foi contratado será entregue conforme o esperado. O que escapa dos estreitos limites da confiança é motivo de frustração, revolta ou de um pesadelo que pode evaporar sonhos e o futuro de uma família – como a aquisição equivocada ou venda fraudulenta de um imóvel, por exemplo.

Com as marcas de comunicação, não é diferente. Como nos artigos à venda pela internet, há infinitas opções de notícias e informação disponíveis online. E, assim como o consumo de carne sem certificado de origem pode trazer complicações sérias ao organismo, o consumo de informação que não é proveniente de uma marca confiável, testada e aprovada pelo público por anos ou décadas a fio, traz sérios riscos a incautos. Quem consome informação estragada pode se contaminar com dados deliberadamente distorcidos para tentar por de pé teses que, no fundo, defendem interesses ocultos. Pode, também, cair em arapucas que visam a levar a tomada de decisões erradas, seja em relação a uma compra ou até mesmo na formulação de realidades adulteradas para proveito político.

No mundo da desinformação, os produtores de fakes são equivalentes aos charlatães que apregoam curas milagrosas. Infelizmente, em uma sociedade desesperada pela necessidade de acreditar em algo, muitas vezes a informação adulterada encontra um público disposto a consumir de olhos fechados o vasto cardápio desinformativo à disposição nas redes e nos grupos de mensagem.

O antídoto para a falta de confiança e a desinformação deliberada são os veículos profissionais de comunicação, entre os quais os jornais são os decanos.  Jornalistas profissionais não são imunes a equívocos ou a restrições de tempo, espaço, recursos e, inclusive, talento. Mas os jornais e o jornalismo não estão no ramo do erro – o seu modelo de negócios pressupõe a precisão, a veracidade e a pluralidade como elementos fundamentais para se estabelecer a confiança – seja do público que consome a informação profissional ou das marcas que nela anunciam seus produtos e que, por extensão, se associam na corrente de credibilidade.

Reforçar a cadeia de confiabilidade entre público e veículos é uma tarefa permanente, construída hora a hora, dia a dia, ano a ano. Jornais, de uma forma geral, em particular aqueles com muitas décadas de história, podem ostentar que sua maior vantagem competitiva para o futuro é exatamente seu passado. Quanto mais tempo provado e aprovado, maior será a relação de credibilidade que passa de geração em geração. E, neste mundo caótico da informação e desinformação, não há e não haverá nunca princípio mais relevante do que a confiança sedimentada por muitas décadas de jornalismo profissional.

Marcelo Rech
Presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), vice-presidente do Fórum Mundial de Editores e vice-presidente Editorial do Grupo RBS