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Credibilidade e transparência

JAYME SIROTSKY - GRUPO RBS

JAYME SIROTSKY *

As duas qualidades referidas no título deste artigo são irmãs siamesas, mas, paradoxalmente, filhas de pais diferentes. No universo da mídia, que com o advento das redes sociais passou a ser o próprio Universo, são damas desejadas _ a primeira pelos veículos tradicionais e sérios de informação, a segunda pelo público. Para sobreviver no mundo anárquico da internet, em que cada indivíduo tem seu próprio canal de comunicação, em que as pessoas produzem e divulgam informações, o jornalismo precisa conquistar a credibilidade. Em troca, este ente de múltiplas faces chamado público exige transparência dos veículos de comunicação.

_ A transparência é a nova neutralidade, disse recentemente o comentarista de tecnologia David Weinberger à revista The Economist, que publicou uma brilhante reportagem sobre o futuro da notícia, abordando exatamente o confronto entre as velhas e novas mídias. As pessoas passam mais tempo no Facebook, no Twitter, nos blogs e nas consultas ao Google do que lendo jornais. Os indivíduos, as empresas, as organizações sociais e os governos têm seus próprios canais de comunicação, contam e consomem suas próprias histórias, acessam a informação sem pagar nem pedir licença. Afinal, ela está disponível, gratuitamente, na web.

Os agregadores de notícias e as mídias sociais têm mais audiência do que os meios tradicionais de informação. Concorrem com eles, de maneira desigual, pois apropriam-se de conteúdos sem ao menos pedir permissão. Além disso, prestam-se a deformações de toda ordem, do plágio ao anonimato, do boato à difamação. Decididamente, não são exemplos de difusão dos valores éticos e jornalísticos que todos aprendemos a admirar. Na mídia tradicional também ocorrem desvios, como estamos constatando neste triste episódio do The News of the World, o tablóide sensacionalista londrino da News Corporation que acaba de ser fechado por praticar espionagem e grampos ilegais. Só que a mídia responsável presta contas de seus atos e assume as consequências de seus pecados. Nos novos meios ainda impera o vale-tudo.

Mas são, inquestionavelmente, canais importantes para a alavancagem de idéias e até mesmo para difundir alterações políticas, como estamos vendo em alguns países do Oriente Médio e da Ásia. A mídia internacional sofre restrições para noticiar a revolta popular na Síria, mas os militantes usam diariamente as mídias sociais para divulgar fotos e mensagens. A primeira notícia do ataque americano ao esconderijo de Osama bin Laden no Paquistão foi dada pelo twitter de um vizinho.

Para concorrer com estes meios anárquicos, mas eficientes, a mídia tradicional tem que inovar, aliar-se às novas mídias e diferenciar-se pela credibilidade.

E credibilidade, que é uma concessão do público, só se conquista oferecendo-se em troca informação qualificada e ética, embalada num invólucro de transparência.

 

*Presidente Emérito do Grupo RBS