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Financeiros, para que?

Foto Silvio Soledade

Outro dia li um artigo sobre a mudança no papel do gestor financeiro. Aquele velho “guardião da chave do cofre”, exímio cumpridor do MNP (manual de normas e procedimentos) implementado pelos auditores contábeis, e fiel defensor dos direitos dos acionistas, com unhas e dentes; em alguns casos, mais dentes.

O artigo, embora muito bem escrito pelo jornalista, não apresente nenhuma coisa nova, chamou-me a atenção.

O profissional de finanças sempre foi  “low profile”, dentro e fora das organizações, e as mudanças em seu papel pelo qual passou e vem passando continuamente não são descritas nos manuais de sucesso profissional espalhados pelas editoras.

O profissional de finanças sempre foi avesso ao banho de luz que estas mudanças podem ocasionar.

O fato é que precisamos, como financistas, aproveitar melhor estes momentos de fama.

As mudanças neste papel não são novidades. São fórmulas de sobrevivência.

Cabe aos financeiros solidificar as questões estratégicas nas organizações.

É responsabilidade deles, em sua maior parte indiretamente, de implementar as idéias, as inovações, as ações de guerrilha, seja de crescimento, seja de retração, que as unidades de negócio vislumbram.

Os financeiros sempre são chamados para ouvir. Mas nunca para opinar. Embora no final de cada reunião haja sempre alguém que cobre uma manifestação.

Suas decisões nunca são tomadas no calor das discussões, talvez isto gere nele a imagem de lento, de divagar muito sobre certos assuntos. Não há margem para erros. Porque, em seu caso, fatalmente, eles serão o mesmo que jogar dinheiro pelo ralo.

Olhemos por exemplo para o nosso mercado, o publicitário. Poucos são os financeiros que aparecem ganhando prêmios. E quando acontece, demoramos em descobrir que sua origem foi ou é a área financeira.

Sou da época em que os financeiros ficavam no prédio anexo à sede principal das agências, às vezes, e quando possível, do outro lado rua.

“Somos over head”, definiria um amigo, que também atua nesta área.

Mas a realidade é outra, cada vez mais os financeiros são chamados, nos momentos oportunos, a contribuírem com sua experiência, acumulada, seja na própria organização ou nas outras organizações, de segmentos diferentes, por onde construíram sua carreira.

Não há ninguém na organização que assista tudo da coxia como os financeiros. É por isso que quando chamados para opinar sempre surpreenda com o tamanho do seu conhecimento sobre o negócio.

E esta sim talvez tenha sido a maior mudança em seu papel. O conhecimento 360ª graus da organização.

Muitas vezes está sob sua responsabilidade não só a gestão dos recursos financeiros, principalmente os limitados; a gestão dos recursos humanos, questões burocráticas, de negociação de contratos, de administração de sonhos e pesadelos, também passam pelo seu gabinete.

Ainda há gestão dos recursos técnicos, ferramentas “up to date”, que funcionem e que permitam que a organização cumpra seu papel, sem traumas, sem perda de tempo, sem lentidão na internet.

Não há mais espaço para aqueles que se fecham na sua sala, e tratam todos os assuntos como “top secret”, sem compartilhar decisões, inclusive as financeiras.  Não conhecem seus clientes, não aparecem nas reuniões de planejamento, principalmente aquelas que não são convidados.

Às vezes são os financeiros os primeiros a perceberem que algo está errado na relação com seus clientes. Entretanto, são os últimos a serem ouvidos na organização com relação a isto.

Muitas organizações demoram em perceber o talento criativo de seus profissionais financeiros. Criativos no sentido de fazer o mais com o menos, de tornarem a organização lucrativa aos olhos dos acionistas, de cumprirem os acordos com seus fornecedores e parceiros, e principalmente, de entenderem, melhor que ninguém, a satisfação de seus clientes quando percebem o valor da prestação de serviço.

 

*Silvio Soledade (Diretor Financeiro e Cultural da APP  e Diretor Associado da PlanoGestão Consultoria)