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Liderança na era caórdica

Paula Zacharias Gabriel

Não me lembro de ter aprendido na escola que qualquer ser humano sobre a face da Terra tem vocação para a liderança. Parecia que uns nasciam com esse dom e outros nasciam para ser gênios tímidos e introspectivos ou simplesmente pessoas executoras e seguidoras. Uma coisa meio parecida com o fatalismo da sociedade de castas indiana, quase lá, guardadas as devidas proporções. Mas acredito que a educação deva se basear em convencer todas as pessoas de que elas têm o direito e o dever de ser líderes em alguma coisa, bastando identificar seu talento único pra saber exatamente em quê. Claro, todo ser humano saudável tem iguais condições físicas para desenvolver essa habilidade. É a sociedade que o condiciona em favor ou não desse potencial. Pois bem, quem me confirmou que a liderança não tem apenas as formas mais corriqueiras foi o especialista em gestão, estratégia e liderança de organizações Oscar Motomura, fundador da Amana-Key. Em seu programa de gestão avançada (APG), ele apresenta 12 tipos de líderes que existem dentro das organizações, nos quais ele coloca o foco do seu trabalho de treinamento: estadista, educador, integrador, visionário, cientista, pacificador, transformador, exemplo, estrategista, designer, energizador e empreendedor.

Só de olhar pra essa lista aposto que você, no mínimo, desconfiou qual é o seu tipo. Ou os seus tipos possíveis. E o mais interessante é deduzir que dessas várias formas de liderança saem diferentes responsabilidades para com as organizações para as quais trabalhamos, para a comunidade em que estamos inseridos e para a sociedade como um todo. Ou você pensa que alguns dons lhe foram dados para uso egocêntrico e individual? Nunca. Isso não seria sustentável e inviabilizaria a vida na Terra, em tese. Todo e qualquer dom que a gente tem deve servir pro nosso bem mas também para um bem comum. E aí é que está a graça de toda essa discussão. E também a desgraça atual do nosso planeta. O bem individual e o bem comum deveriam andar de mãos dadas em todas as decisões que tomamos pras nossas empresas, nossas marcas e pras nossas vidas pessoais. Ou você já viu a natureza – essa coisa toda bem amarrada e perfeita que está aí há bilhões de anos – agir de forma egoísta? Já viu algum ecossistema se desequilibrar senão pela ação do homem? A resposta para todos os males da sociedade está no perfeito funcionamento da natureza, coisa que deveríamos observar, reverenciar e reproduzir (mas da qual viemos nos afastando há pelo menos 500 anos). E para esse post, o aspecto mais interessante dessa perfeição toda está no conceito de “caórdico”.

Caórdico adj [port caos+ordem] 1. Comportamento de qualquer organismo, organização ou sistema autogovernado que combine harmoniosamente características de ordem e caos. 2. Disposto de maneira a não ser dominado nem pelo caos nem pela ordem. 3. Característica dos princípios organizadores fundamentais da evolução e da natureza.*

Exemplos de sistemas caórdicos: uma banda de chorinho (onde há improviso, provocação, mas total harmonia e capacidade de reação dos membros todos); uma startup bem sucedida (de jovens lideranças com iguais poderes); e uma escola de samba. Neles não há uma hierarquia tradicional de imposição de poder, mas sim uma lógica mais orgânica de organização, que funciona com base nos princípios de que: todos os seus elementos estão super alinhados com o propósito da organização; todos sabem sua função e conhecem muito bem a função dos outros; todos trabalham por excelência, reconhecem as lideranças um do outro e todos são muito competentes. Pronto, estabelece-se assim uma ordem natural de competências que rende autoridades naturais e competição zero (do tipo nocivo) entre seus membros. Isso é possível de se adotar em qualquer organização? Sim, é. Mas a base pra isso dar certo é um princípio que, infelizmente, poucos de nós adotam: o de colocar o bem comum como um produto tão ou mais importante que o bem individual. E o mundo está caminhando para essa organização diferente, caórdica? Aparentemente, essa é uma tendência.

O que muitos gurus da administração de empresas, da ciência e da filosofia, tanto quanto alguns mestres da sabedoria popular e líderes espirituais já entenderam é que esta é a única forma perfeita e possível de se construir uma sociedade mais justa e um planeta sustentável. O que eles defendem é que o funcionamento mecanicista (nascido no século dezesseis com Copérnico + Francis Bacon + John Locke + e principalmente Descartes – lembra do método cartesiano, que diz que o todo é simplesmente a integração de suas partes?) não traz mais nenhum benefício à humanidade e à sua forma de se organizar. Está superado, embora nossas empresas ainda funcionem com base nele. É a física moderna (a partir de Einstein, quando a concepção do universo passa a ser uma rede interligada de relações, intrinsecamente dinâmica) que encerra a soberania da era mecanicista e nos faz enxergar melhor uma visão sistêmica do mundo (Teoria da Relatividade). A partir dela, transcendermos a metáfora do mundo como uma máquina e passamos a vê-lo em termos de relações e de integração. A natureza do todo passa a ser entendida como sendo muito maior que a soma de suas partes (tchau Descartes).

Ora, o mundo deveria ser entendido como um organismo vivo, não como uma máquina. Máquinas são construídas, têm funcionamento linear e programado. Precisam de manutenção externa. Organismos vivos crescem e têm desenvolvimento cíclico, auto-renovação, auto-manutenção, auto- transcendência. São interdependentes e se auto-organizam. Consequentemente, têm capacidade de mutação e auto-transcendência. Ritmos, flutuações, vibrações e ondas representam a sua dinâmica. Trata-se de uma superação criativa em busca de novidade. E isso é a propriedade fundamental da vida na Terra! ** Segundo a visão sistêmica (então oposta à mecanicista/ cartesiana), uma organização caórdica não tem hierarquia, pois nenhum elemento dela é menos importante ou menos essencial. Seus elementos são autônomos, porém interdependentes. E todos exercem algum tipo de liderança. Não à toa, defende-se que uma pessoa na posição reconhecida de líder tem o dever para com seus subordinados de ajudá-los a identificar seu talento único e desenvolver sua liderança (para que possam ser até melhores que ele). Então imagine que não existam mais ‘subordinados’ propriamente, mas pessoas com interesses comuns e o mesmo propósito, exercendo suas lideranças de forma integrada e para desenvolver o todo. Isso é a concepção das empresas para o futuro e é perfeitamente possível de se praticar (segundo Motomura, Hock, Capra e alguns outros sujeitos incríveis e respeitáveis).

Referências:

-“Nestes tempos é que descobrimos os líderes que temos em nossas organizações. E também os líderes de que ainda precisamos…”
(Oscar Motomura para Época Negócios)

– http://www.amana-key.com.br/site/

-*Dee Hock, ‘Nascimento da Era Caórdica’, 2000.

-**Fritjof Capra, ‘Ponto de Mutação’ (The Turning Point: Science, Society, and the Rising Culture), 1982 (versão para o cinema de 1990).

-Publicado originalmente em http://unplanned.com.br/ em 07/05/2013

Paula Zacharias Gabriel