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O Consumo serve para pensar

Essa frase podia ser minha, ou de um dos 400 mil profissionais de propaganda atuantes no Brasil, ou de um dos 60 mil estudantes matriculados nas faculdades de Publicidade e Propaganda, ou ainda de um dos 11 mil formandos em publicidade que todos os anos são colocados no mercado de trabalho no país, mas é de Néstor García Canclini, antropólogo argentino, formado pela Universidade de Paris. Ainda bem.

Créditos da foto para sitiocurupira

Expressão de Liberdade. Por André Porto Alegre.

Essa frase podia ser minha, ou de um dos 400 mil profissionais de propaganda atuantes no Brasil, ou de um dos 60 mil estudantes matriculados nas faculdades de Publicidade e Propaganda, ou ainda de um dos 11 mil formandos em publicidade que todos os anos são colocados no mercado de trabalho no país, mas é de Néstor García Canclini, antropólogo argentino, formado pela Universidade de Paris. Ainda bem.

Para o autor o consumo assume importância política e de cidadania, “no consumo se constrói parte da racionalidade integrativa e comunicativa de uma sociedade”. O que é visto como “desperdício” pelos críticos do consumo é, na verdade, “um processo em que os desejos se transformam em demandas e em atos socialmente regulados”, segundo o autor.

Canclini se utiliza de exemplo simples como a introdução de objetos modernos em uma comunidade indígena para comprovar sua tese. Nessa situação o produto só será aceito caso possa ser assimilado pela lógica comunitária. Dessa forma estaria provado que o anseio pela novidade não é algo irracional ou independente da cultura coletiva.

A articulação de consumo e cidadania depende de alguns requisitos: a) uma oferta vasta e diversificada de bens; b) informação mutidirecional e confiável a respeito da qualidade dos produtos; e c) a participação democrática nas decisões que organizam o consumo.

No entanto isso é negado pelos puristas contemporâneos, interessados em manter parcela crescente da população seqüestrada de seu direito de se informar. Esses acreditam que quanto mais distantes da comunicação comercial, melhores serão os cidadãos como se fosse possível que alguma sociedade fosse melhor sem informação.

Esse obscurantismo praticante simula uma proteção que forja incapazes. Desprovidos de oferta diversificada de bens, de informação confiável a respeito da qualidade ou da participação democrática que organiza o consumo, esses futuros brasileiros serão alvos fáceis para a amputação de outros direitos.

Canclini sabe exatamente o que está dizendo quando foge dos argumentos fáceis e simplificados dos que condenam o consumo em nome da proteção da sociedade. Na verdade os cidadãos devem ser alertados sobre os objetivos desses tutores de ocasião capazes de todo o tipo de ardil contra a liberdade de expressão comercial afinal, o consumo serve para pensar e aí deve estar o perigo para os opositores da autorregulamentação publicitária.