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O dilema do uniforme

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Obrigar todos os alunos a usarem uniforme favorece a igualdade, mas macula a liberdade.

Permitir que todos os alunos usem qualquer vestimenta enaltece a liberdade, mas prejudica a igualdade.

Eis o dilema do uniforme, segundo meu filho de 17 anos.

“E como se resolve esse impasse?”, perguntei entre orgulhoso e assustado com o rumo da despretensiosa prosa. “Com fraternidade.”, respondeu o garoto sem hesitar.

Segundo a prematura tese desse calouro da Universidade de São Paulo, a maneira de resolver conflitos dessa magnitude está na capacidade única dos seres humanos: a fraternidade, que não por coincidência, compunha o trinômio da Revolução Francesa junto com a liberdade e igualdade.

Confesso minha excitação diante da solução simplista e, por isso mesmo, genial, sobre a qual nunca havia pensado. São tantas as situações em que nos encontramos frente a frente com dilemas do uniforme e tantas manobras mentais e verbais para encontrarmos uma saída honrosa, que a pueril sugestão do exercício da fraternidade impregnou meu pensamento.

Em tempos de falta de tolerância e consequente aumento da violência, a fraternidade como instrumento de equilíbrio entre a liberdade e a igualdade se mostrou o caminho ideal para os dilemas do uniforme da indústria da comunicação. Todos os envolvidos no processo de produção da propaganda tem consciência de suas responsabilidades éticas, principalmente no que se refere ao público infantil. Por isso aproximadamente cento e cinquenta profissionais, representantes de variadas áreas da atividade, se dedicam ao CONAR, o Conselho Nacional De Autorregulamentação Publicitária.

No entanto esse esforço de mais de trinta anos de história reconhecida internacionalmente como dos melhores exemplos de autorregulamentação se depara com a desconfiança de setores da sociedade civil brasileira que apoiam um aparato legislativo como única forma de evitar os eventuais males da propaganda para as crianças. Defendem a igualdade, ou seja, um conjunto de leis capazes de cercear todo e qualquer tipo de publicidade infantil e dessa forma “proteger” as crianças da sanha consumista imposta pelas empresas produtoras de bens de consumo ou serviços.

Por outro lado, o CONAR é um defensor da liberdade na forma de uma série de regramentos éticos, oriundos do debate com a sociedade, transcritos no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, além da permanente vigilância exercida através das análises dos anúncios denunciados por qualquer cidadão que se sinta vítima de uma abordagem publicitária inconveniente.

Definitivamente os dois lados não se entendem e nos últimos tempos acirraram suas diferenças em confrontos públicos travestidos de debates em prol da informação.

Estamos diante de um dilema do uniforme em que a tendência é a perpetuação da discussão estéril sem resultados práticos, que favorece as pequenas vitórias semânticas irrelevantes para o aprimoramento da sociedade. Um manequeismo primário mais condizente com o comportamento das torcidas rivais em estádios de futebol do que com a atenção que o assunto sugere.

Falta fraternidade. A compreensão ampliada das consequências na adoção exclusiva de um dos ideais. A flexibilização dos conceitos porque esses não se constituem verdades absolutas. A consideração de que do lado oposto do pensamento há um cidadão que também quer o bem estar da sociedade. Essas e outras atitudes caracterizam a fraternidade como forma de mediação dos conflitos. O oposto disso é a intolerância e, acreditem, a barbárie.

Há uma serie de outros exemplos da carência de fraternidade não só na indústria da comunicação, mas no nosso cotidiano. Creio que é um bom momento para começarmos a sermos mais fraternos. Obrigado Alexandre, meu filho.

André Porto Alegre
Conselho de Administração e da Diretoria Executiva da APP



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