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[Causos da Propaganda ] A abençoada lavadeira #APP80anos

A abençoada lavadeira
Por Flávio Rezende

O primeiro terno a gente não esquece.

Em 1970 comecei minha vida profissional no negocio da propaganda. Iniciei na Quadrant Publicidade, depois de uma dura prova de conhecimentos no Grupo InterPublic e várias entrevistas na própria agência.

Numa dessas entrevistas, no final, acho, eu iria falar com o Antônio Ruiz, na época diretor de mídia dessa agência, figura importante na agência e no negócio. Naquele período, minha obrigação principal era o estudo, portanto minhas roupas eram poucas: duas calças jeans, camisetas, tênis, etc. E não tinha o fundamental para uma entrevista: o terno.

Entrei em pânico total, falei com minha avó, com quem morava em Santana, com vizinhos e amigos. Foi um alvoroço! A comunidade inteira atrás de um terno que me servisse e, acreditem, pintaram só três ternos.

Santana na época era um bairro distante, construído na sua maioria por uma população de classe média baixa, que trabalhava como operário ou comerciante e não usava evidentemente esse tipo de roupa.

Mas não é que uma senhora incrível, craque na profissão e maravilhosa como ser humano, lembrou que tinha um crédito na Ducal e o colocou à minha disposição?! Naquela coisa de comprar e pagar em doze meses. Era um risco, pois eu dependia do terno para o emprego e se não o conseguisse não poderia pagar o crédito em nome dessa abençoada senhora.

Com muita coragem fui para a Ducal; eu, minha avó e a protetora lavadeira. Compramos um terno marrom, três botões (clássico), um sapato, meias, camisa e uma gravata que não combinava com nada. Armei naquele dia uma conta que me fazia suar de medo, mas em contrapartida comprei a maior segurança.

Lá fui eu então para a tal grandiosa entrevista. Não preciso dizer que me achava o cara mais elegante de São Paulo. Fui muito bem recebido pelo até hoje querido Antônio Ruiz. A entrevista durou uma hora, mais ou menos. Durante esse tempo, o homem, virava e mexia, olhava para o meu terno.  Em cada olhada, eu me sentia melhor e mais seguro, pensando “O cara está me achando bárbaro e bem vestido!”. Terminamos a entrevista e o Ruiz disse:

– Menino, pode começar amanhã.

Agradeci, disfarcei o entusiasmo e corri para a rua. Era sonho! Pensei na minha avó, na lavadeira protetora, da Ducal, no terno, e levantei meu braço esquerdo para beijar a manga do paletó, quando percebi que ela estava toda descosturada e meu cotovelo de fora. Até hoje não sei se fui contratado por dó ou por competência, mas foi maravilhoso!